segunda-feira, 11 de junho de 2012

Não, Chico, eu não te amo

- Tu pode achar que se propor a fazer as pessoas dançarem é muito pouco. Tu pode achar que a gente tem que propor às pessoas a ir lá e dar um tiro no Sarney. Só que eu acho que não tá precisando. Acho que não é o caso do cara subir no palco. Então vou pr'um palanque se é pra discursar. Acho que cada coisa tem uma finalidade. E o rock é feito pra dançar, não é pra pensar em política. 

Isso foi o que Marcio Petracco disse para um especial da banda TNT no programa Palcos da Vida na metade final da década de 80. E eu então achei mais uma razão, além das tantas que eu já tinha, pra dizer com orgulho que sou uma baita fã de Marcio Petracco. Não falo do rock ser ou não político, falo da música, de modo geral, não ser vista por mim como política.
Há quem menospreze a Jovem Guarda por ser apolítica, a maioria dos que ama o Tropicalismo por ser político. E dos que acham que é Deus no céu e Chico Buarque na Terra. Eu, cá no meu canto, me indigno a valer com o menosprezo pela Jovem Guarda, enquanto ainda tento descobrir o encanto de Chico Buarque.
Sobre a Jovem Guarda: tal como os Beatles, que em vez de reclamar da monarquia inglesa, como fez o Sex Pistols nos anos 70, a Jovem Guarda não se apegava a revoltas políticas. Mas, tal como os Beatles, a Jovem Guarda (e aqui cito especialmente a dupla Erasmo e Roberto Carlos, que foram ícones e os grandes pilares do movimento) colocou pra fora sentimentos até então reprimidos pela sociedade geral, como aluzir ao sexo ("Quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno" e "Pode vir quente que eu estou fervendo" são frases que, por mais que hoje pareçam comuns, na época deixaram pais de cabelo em pé). Aí me diga, como falar em liberdade política, se nem sequer havia espaço para a juventude expor o que se agitava dentro dela? Creia, amigo, sem a Jovem Guarda não haveria Tropicalismo, isso Rita Lee, Caetano Veloso e Gilberto Gil mesmo admitem. A Jovem Guarda foi sim essencial, quer você queira admitir ou não.
Aí pode-se lembrar da intriga que havia entre MPB e Jovem Guarda. Houve muita indignação quando Roberto Carlos pisou pela primeira vez no palco de um Festival da Música Brasileira. Mas, e aí, o que é a Música Popular Brasileira se não é a música brasileira? Sim, no começo a Jovem Guarda fez muito plágio de músicas inglesas e americanas, mas muitas músicas, hoje clássicas, são originais, como "Alguém na multidão", dos Golden Boys, e "A carta", de Erasmo Carlos. Mas se houve preconceito dos contemporâneos da Jovem Guarda, houve ainda nos anos 70, com o Tropicália.
Por alguma razão, grande parte dos seres que amam Chico Buarque, esnobam Roberto Carlos, porque, ao que parece, além de nos anos 60 ele se negar a falar em política, suas músicas nunca tiveram, dizem, crítica política e social, sendo, assim, altamente dispensável. Ouvir seres falarem assim me doi tanto na alma que chega a me indignar. E é por isso que eu me encantei mais ainda com o Petracco ao vê-lo falar que música não precisa ser política, percebi, pela primeira vez, que eu posso não estar tão louca assim (pelo menos nesse assunto).
Sempre me senti meio fracassada por não perceber as referências políticas nas entrelinhas das músicas do Chico Buarque. Mas vai ver é porque eu nunca consegui parar para ouvi-lo. Sei lá, nunca me chamou a atenção. Talvez justamente por saber que, ao que parece, tem que ser muito gênio para entender o que ele quer dizer. E quando eu ouço música, não quero saber se o cara é gênio, quero só ouvir música. Aliás, se tinha que ser muito esperto pra se entender realmente Chico Buarque, como isso o torna Popular? Quer dizer, o cara é um intelectual. Nos anos 70 a maioria da população era intelectual? Devia ser, já que ele é um dos grandes nomes da Música POPULAR Brasileira. Estranho, não?
Mas vamos fugir da parte política. O que quero mesmo dizer é que a música não vale pelo que o artista quer dizer, mas sim pelo que entende quem escuta. Um cara gênio pra mim é Roger Moreira. Isso, do Ultraje a Rigor. Isso, a banda que canta "Nós vamos invadir sua praia" e "Pelado". Isso, a banda que já vi gente falar ser apenas uma banda "que quer se fazer de engraçada". Pois eu vi muito mais crítica nas letras do Ultraje a Rigor do que nas de Chico Buarque. Crítica direta, que passa despercebida entre versos simplesmente engraçados. Quer dizer "A barriga pelada é que é a vergonha nacional" é uma crítica, não? Mas porque a música que Roger canta não é chorosa, como muitas do Renato Russo, e nem uma imensa crítica a ser interpretada, como Chico Buarque, as pessoas simplesmente não reparam.
Raul Seixas também disse que não achava que suas músicas eram de protesto. Raul, aliás, disse que sua música era simplesmente "raulseixismo". Raul era um guru que não queria ser seguido. Simplesmente porque Raul cantava o que lhe apetecesse, o que queria, cantava pelo prazer de cantar, cantava pra si. E é isso que eu acho que a música é: prazer.
Não, eu não amo Chico Buarque, mas não sou contra ele. Tudo que eu quero dizer é que a música é algo de que nos apossamos ao ouvir, algo que tornamos subjetivo. Quem nunca se surpreendeu ao descobrir algo novo na milésima vez em que escutava uma música? A cada momento a música nos tem um sentido diferente. Respeite, pois, os artistas que passaram, passam e passarão pelos seus ouvidos. Respeite, especialmente, aqueles que os ouvem. Você pode não achar graça nenhuma, mas para alguém, significa algo (falo aqui das pessoas que não escutam alguém simplesmente por ser moda).
Música não é crítica. Música é música. 

10 comentários:

Evelyne disse...

Opa, está falando alguém que está dos dois lados da história: tanto escuto música "política", e gosto muito, quanto música sem crítica/protesto nenhum e também gosto muito.

Dia desses na minha aula de português (sem causa motivo razão ou circunstância) meu professor começou a discutir com a gente sobre a qualidade das músicas de forró, e falamos que toda música tem seu valor quando pensamos que ninguém dança aquela música que é um poço de indiretas, nem muito menos reflete com um funk.
O que acontece é que quando se dança numa festa todo mundo tá bebado e ninguém lembra do que ouviu pra elogiar de um jeito inteligente depois, portanto as músicas que se ouve sóbrio são mais valorizadas.









kkkkkkk
essa foi a minha conclusão, ninguém na sala falou isso xD

Pandora disse...

Eu penso que tudo o que fazemos e pensamos é politica, eu penso que politica são os assuntos que dizem respeito ao andamento da polis e nada mais politico que a música... Quando Erasmo e Roberto decidem abordar um tema e não outro em suas canções estão fazendo uma decisão politica... Como são ouvidos por milhares a decisão deles influencia no andamento da polis, nem que seja na construção de formas de sentir e de viver um romance.

Vc sabe que não sou uma ouvidora de música, acho que nem precisa dizer quais são meus três músicos favoritos vc sabe dicor (Cazuza-Pássarinho-Clara Schumann) e eu penso a música dos três como como construção politica, Cazuza fala dos assuntos referentes a administração dos bens públicos, Passarinho deixou registrado em suas interpretações profundas muito sobre como viviam e sentiam os homens e mulheres de seu tempo e Clara registrou aquele sentimento romântico que pairava na Alemanha de seu tempo.

Politica não se resume a forma como as pessoas administram os bens públicos através de senado/Câmara e derivativos, politica somos eu, você e todos nós vivendo nossas vidas...

Politica é vc decidindo sobre o que vai falar no jornal no qual estagia ou nesse blog através do qual você é ouvida.

Essa é minha longa e chata opinião pessoal.

P.S.: Fale mais sobre Passarinho nesse blog por favor.

Notas de Rodapé disse...

Eu concordo plenamente que música não é só política, música é mais que política e abrange outros temas, tópicos, sentidos, etc. Assim como o cinema! Quem sabe um dia quando o cinema brasileiro parar de fazer enredo visando apenas a política a gente consiga ganhar algum prestígio.....

Tita disse...

Concordo plenamente com a Pandora. E, sim, eu amo Chico Buarque. Foi o único artista do qual eu comprei um LP rsrsrs Faz muito tempo que não ouço, na verdade só tenho ouvido coisas novas.
Mas não tem como uma pessoa analisar corretamente uma obra sem conhecer o contexto cultural da época. O simples gostar ou não gostar pode ser parâmetro para você ouvir ou não ouvir. Isso é uma liberdade que todos temos. Se eu gosto eu ouço, se não gosto eu não ouço. Simples.
Mas no momento em que você vai dividir a sua opinião com outras pessoas, mesmo na mesa de um boteco, esse parâmetro é muito raso e acaba não acrescentando nada.
Gosto da banda Ultraje a Rigor, mas achar que "Pelados" foi algo crítico realmente mostra uma falta de conhecimento da época. Na ditadura o governo incentivava filmes pornográficos como Dama do Lotação e outros similares porque o sexo distraía a opinião popular e isso se estendeu por muito tempo. O sexo era muito mais explícito no cinema e na TV do que atualmente. Diminuir a validade de quem teve postura política contra uma ditadura que torturava e matava também me soa um tanto quanto ingênuo (e até alienado) para quem colhe os resultados desses enfrentamentos, ou seja, nascer numa democracia e com liberdade para falar e escrever o que deseja.
Não considerar o aspecto político algo importante para analisar um artista e sua obra é válido, afinal existem outros aspectos. Mas no momento em que você se presta a fazer um comparativo justamente nesse aspecto é necessário aprofundar mais a pesquisa do artista e da época que você não conhece por não ter vivido, para não supervalorizar somente aquilo que conhece.

Aleska disse...

Preciso sair em defesa de Chico Buarque. Na verdade, ele foi um dos intelectuais que tentaram se aproximar da cultura popular Ana. O samba nasceu no morro, é cultura de pobre, e Chico faz samba, a pesar de fazer Bossa Nova também que já ficou mais elitizada. Se vc vir a coletanea de dvds comemorativa dele, vai ver entrevistas sobre as diversas fases da carreira, e o "Político" foi apenas uma delas. Acredito que a maior representante dessa fase é "Cálice", que duplamente se refere ao Santo Graal (o cálice da ultima ceia) e se refere a obrigação das pessoas em não se revoltarem contra a ditadura, manter para si suas opiniões, e por tanto, além de cálice, a palavra soa como "cale-se!". Pode soar muito intelectual, mas era preciso fazer as coisas na surdina, pois toda musica passava pela censura. A intenção não era intelectualizar, mas passar a mensagem de forma discreta, e mostrar que havia pessoas se revoltando contra o regime. Nos EUA, os negros também usaram esse artificio da musica para se organizar em quilombos. Procure os outros albuns dos CHico na wikki, vc vai encontrar o"Malandro", que acho que é o maior encontro da vida intelectual com a cultura popular. Não demonize o Chico, ele só fez isso porque o regime limitava sua expressão, os assuntos que ele mais gostava era a alma feminina. Adorava fazer músicas como se fosse uma mulher, e eu acho que essas são suas melhores musicas, veja valsinha,olhos nos olhos, pedaço de mim. São lindas! Eu não desmereço o Roberto Carlos porque ele não era político, acho até chato esses filmes, livros e outras produções culturais muito pretensiosas. Só Não gosto muito Do Erasmo e do Roberto porque não cai bem mesmo. Ah, não quero convencer vc a gostar do Chico, mas se for pra desgostar desgoste pelos motivos certos, e não pelo que as pessoas falam dele.

Aleska disse...

Gostei muito da opinião da Pandora também! As nossas relações cotidianas são políticas, e a música e a cultura mesmo influenciam a população, podem ser medidas políticas.
Até a escolha da educação que se vai dar ao povo é uma medida política. Tudo está inserido neste contexto, seja a formação da mentalidade coletiva, seja a adm pública.

Pandora disse...

Ana o bicho pegou rsrs... Mas eu concordo com a critica da Tita, para comentar, especialmente você que está se tornando uma comunicadora por profissão, é preciso se informar muito bem sobre as coisas, claro isso aqui é um blog, nossos textos são meramente opinativos, tudo aqui é opinião rigorosamente pessoal, como vc diz o blog é um "beco escuro ou obscuro" mas é um beco no qual as pessoas sempre podem se encontrar e nos encontrar... E sim, precisamos conhecer até o que odiamos!!! #Karma

Ana Seerig disse...

Jaci, respondi a Tita pelo facebook. Me dou ser chamada de mau-informada. A minha intenção não era informar. Usei exemplos diversos e intencionalmente provocativos pra dizer: música é música, cada um tem seu motivo pra gostar ou desgostar, pra tocar e pra cantar. É essa a minha questão, não se deve desvalorizar nada por não gostar. Eu não escuto Chico Buarque, mas isso não quer dizer que eu não reconheça seu valor, que não saiba que ele foi um cara ímpar e merece sim reconhecimento, mas ele não é o único.

Roderick Verden disse...

Mais um post interessante...O "Cálice", de fato, é protesto, é uma música política(muito bem feita, na minha opinião). A famosa e bonita "Construção", é uma crítica ao capitalismo, crítica a qual concordo.
"Malandro a candidato a deputado federal..." Bem fácil de entender, não? Mas, sinceramente, até hoje não entendi a "Geni".rs

Minha praia , é o que chamam de rock. Nunca gostei de MPB, exceto Chico Buarque, embora só conheça suas músicas tocadas nas rádios. Ele é um baita de um compositor, e, por incrível que pareça, gosto de sua voz, que transmite sinceridade, convence. É um gênio, ao mesmo tempo, uma pessoa simples, que não ataca ninguém; modesto, não se acha.

Gosto da jovem guarda, e de algumas músicas românticas/bregas, em especial as canções gravadas por Paulo Sérgio.

Nada contra músicas com letras políticas e nem contra canções com letras sentimentais, o que curto mais mesmo, é a melodia, os arranjos...

VaneZa disse...

Eu tbm não gosto de Chico. Na realidade eu gosto das suas músicas cantadas por Bethânia, Gal... Mas na voz dele... Nunca! Detesto a voz dele. Ponto.

Quanto a músicas com protestos políticos, algumas eu curto muito. Eu adoro a Tropicália da mesma forma como adoro a Jovem Guarda. É como vc diz... "Mésica é música".

Quem disse a ti que Ultrage não tinham letras críticas foi um doido doente de pedra. Eu por exemplo, não curto Ultrage, W.M. diz que é heresia da minha parte, mas eu não curto, simples assim!

Acho que no dia que as pessoas aprenderem a respeitar não só o gosto musical das pessoas, mas a respeitar tudo que o outro goste, o mundo será bem melhor.

BeijoZzz