sábado, 24 de março de 2012

O Rio é tão longe: Cartas a Fernando Sabino - Otto Lara Resende

Como uma apaixonada por Fernando Sabino e também pelas crônicas de Paulo Mendes Campos, é inevitável que eu não tenha ouvido falar em Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, afinal os quatro não eram só amigos, se autointitulavam "os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse". Mesmo conhecendo só uma parte do quarteto, sempre achei encantador esse grupo. Aliás, até sonhava com o impossível: voltar ao passado e fazer parte desse grupo encantador de amigos escritores e mineiros. Isso sem falar em Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga, que também eram muito amigos dos quatro. Encontrar, então, esse livro de cartas foi uma surpresa maravilhosa. Confesso que lamentei, a princípio, não haver as respostas do Sabino, mas logo o Resende me fez esquecer isso...
A introdução de Humberto Werneck já é encantadora. E motivadora. Impossível lê-la sem querer consumir o livro de imediato. Ah, e as cartas de Resende! Nunca li nada dele, mas já estou apaixonada por sua escrita. Talvez seja porque, segundo Sabino, o melhor da literatura de Otto estava nas cartas. O sentimento de solidão, a alegria, o desânimo, a empolgação, tudo isso Otto transmite nas suas cartas. Não são cartas, são conversas. Conversas digitadas. Em máquinas de escrever (que eram sempre razão de um comentário ou outro dele). Cartas imensas ("...tenho milhares de cartas para escrever e estou me perguntando onde é que arranjei assunto para lhe escrever dez páginas no outro dia. Donde se conclui que a literatura (epistolar) não se faz com assunto, mas com palavras." pág. 174) Cartas curtas. Histórias que inspiraram crônicas de Sabino. Histórias não contadas pra não inspirarem cartas de Sabino. 
Ler as cartas de Resende nos dá a sensação de conhecê-lo. É quase possível vê-lo ao seu lado falando. Tagarela assumido, ele resmunga pela falta de cartas dos amigos, especialmente das de Sabino ("Fico me achando mulher de soldado, tanto mais apaixonada quanto mais desprezada." pág. 85), e pede por notícias para que não se sinta apagado do mundo ("Que é que você andou conversando com o Erico sobre mim? Me conte, eu estou muito por baixo, preciso saber também umas coisas agradáveis, mas pode ficar certo de que não acredito, porque definitivamente não acredito mais em mim." pág. 148); reclama  dos correios ("Essa merda de país fodido que é o Brasil ia começar a ser fundado (como país) no momento só que melhorasse o correio." pág. 372); e confessa medos e receios ("...tenho medo de gente, a não ser a domesticada." pág. 162). Além de levantar teses, fazer observações e expor mil ideias diferentes que correm em sua cabeça ao mesmo tempo. Dessas cartas todas, poderia eu tirar um milhão de frases, uma mais encantadora e curiosa que a outra.
Ah, sim, estou encantada por Resende. Me reconheço nele em certos pontos e o admiro em tantos outros. Mente incansável. Queria eu tê-lo como correspondente. Ah, e volta o desejo de nascer décadas antes e me meter no meio desse grupo de mineiros adoráveis e admiráveis. Preencheria linhas e linhas citando passagens do livro, mas encerro com as palavras que ilustram a capa e o pedido-sonho de encontrar mais cartas de Otto publicadas (rola um "O Rio é tão longe II, Companhia das Letras?), lembrando, é claro, que irei em busca de sua literatura não-epistolar.

"Fernando Sabino, o Demônio é uma árvore frondosa cheia de frutos maduros e doces. O Demônio dá sombra aos caminhantes fatigados, o Demônio, Fernando Sabino, dessedenta os que têm sede e dá de comer a quem tem fome. O Demônio é uma romã fresca e saborosa depois do sol e do cansaço. Deus, Fernando Sabino, é uma galhada seca e magra, onde os homens sangram as mãos para nada. Uma caveira no meio do pé da estrada é Deus, Fernando Sabino. Deus é um osso duro de roer. Deus, Fernando Sabino, é uma fieira de dentes amarelos enfiados como em colar e passado no colo de um esqueleto esquecido de si mesmo. Fernando Sabino, o Demônio é uma macieira, o Demônio é alto, louro, simpático, tem olhos azuis e fuma cigarros americanos. Fernando Sabino, o Demônio tem poltronas, Fernando Sabino. O Demônio toma chá com torradas e tem varandas no flanco esquerdo e no flanco direito. Deus é cáustico e sem alpendre. Deus é uma caveira. PERIGO!"

(Lembrete do anjo a Fernando Sabino - Otto Lara Resende - Rio, 24 de outubro de 1954, noite)

7 comentários:

Erica Ferro disse...

Que resenha bonita, Seerig.
Depois de ler uns trechinhos dessas cartas, começo a entender bem o seu fascínio por cartas.
Seria lindo mesmo ter um correspondente como esse Otto Resende!
Não sei se é um livro fácil de se encontrar por aí, mas vou procurá-lo pra ler. Me encantei de verdade.

Pandora disse...

Esse post foi lindo Ana, vc uma escrevedora, uma possibilitadora de encontros nata, pessoa cujo cep eu praticamente tenho de cor e que já reconheço a forma de escrever meu nome, nem preciso ver o remetente... Escrevendo sobre pessoas que também amam cartas só podia dar em um post de uma ternura incrível!!!

É uma honra ser sua correspondente, infelizmente não sou Resende, mas estamos aqui continuando a viver essa experiencia ótima de dar e receber palavras!!!

Cheros Nega!!!

Dayane Pereira disse...

Eu adooro o Sabino. Esse livro é um achado mesmo, não conhecia também.
Super me interessei, e nas suas palavras ainda melhor!

Jeniffer Yara disse...

Eu achei maravilhoso o livro só por se tratar em cartas, mas os trechos que colocou do livro no post me encantaram mais ainda, não conheço os autores, confesso, mas pelo que você falou deles devem ser bons mesmos.
Gostei muito!

Beijos

Nina disse...

hmm deve ser bom mesmo, como tu falas.. agora me deu branco, sabino é gaúcho nao é?

Jade Amorim disse...

Ah, que coisa mais linda! Muitas vezes eu sinto que nasci no lugar errado também, parece que me encaixo mais naquela época onde as palavras eram tão apreciadas!
Gente, nunca li nada do autor, mas pelo pouco que mostrou aqui estou muito afim de ver!

Beijos.

Aleska disse...

É interessante ver que nossos ídolos são gente que nem a gente rsss. Não conheço nenhum dos quatro, mas sei como é que é querer estar mais perto de alguém que não conhecemos e nao existe mais. Sempre tive a impressão de que me daria melhor com alguns autores e personagens do que com as pessoas que eu conheci na realidade.