quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Do rei de Brobdingnag

Cá estou eu a ler "Viagens de Gulliver", de Jonathan Swift, e aplaudindo loucamente as críticas à sociedade em que vivemos feitas com muita sagacidade pelo autor. Lembrando que o livro foi publicado no século XVIII, o que nos faz perceber que não evoluímos muito nesses últimos tempos. O objetivo desse post não é falar do livro, mas trazer um dos trechos que, até o momento, me chamaram escandalosamente a atenção.

Para localização: o trecho a seguir vem da segunda parte do livro, "Viagem a Brobdingnag", uma terra de gigantes, onde Lemuel Gulliver tem como primeiro quarto uma gaveta. Após ir morar no palácio, Gulliver fica muito amigo do rei, que lhe pede informações sobre o país do qual o viajante veio, na tentativa de melhorar seu próprio governo. Dias e dias de histórias por parte de Gulliver, mais alguns para as questões do rei e eis ao que chegamos:

"Em outra audiência, recapitulou com dificuldade a substância de tudo o que lhe eu dissera; comparou as perguntas que me fez com as respostas que lhe dei; em seguida, tomando-me na mão, e batendo-me delicadamente, pronunciou as seguintes palavras, que nunca me esquecerão, como nunca também me esquecerá a maneira por que as disse: "Meu amiguinho Grildrig, fizeste o mais admirável panegírico do vosso país; provastes à sociedade que a ignorância, a ociosidade e o vício são os ingredientes adequados à qualificação de um legislador; que as leis são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidade consistem em as perverter, confundir e iludir. Observo entre vós alguns traços de uma instituição que poderia ter sido, originariamente, tolerável, mas cuja metade está quase apagada, ao passo que o resto foi inteiramente obliterado e borrado pela corrupção. Não transparece, em quanto dissestes, que se exija uma única perfeição para que alguém atinja uma posição qualquer entre vós; e muito menos que os homens sejam enobrecidos em razão da sua virtude; que sacerdotes sejam promovidos pela piedade ou pelo saber; os soldados, pelo procedimento ou pelo valor; os juízes, pela integridade; os senadores, pelo amor à pátria; os conselheiros, pela sabedoria. Pelo que vos toca", prosseguiu o rei, "a vós, que passastes viajando a maior parte da vossa vida, inclino-me a pensar que tenhais, até agora, escapado a muitos vícios do vosso país. Mas, pelo que depreendi do vosso próprio relato e das respostas que tão penosamente arranquei e extraí de vós, não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu que rastejassem na superfície da Terra"."

11 comentários:

Pandora disse...

Realmente é dificil andar para frente quando o assunto é politica... Mesmo crendo que algumas coisas melhoraram nos últimos 200 anos, tenho a impressão que as continuidades são maiores que as rupturas!

E As viagens de Gulliver é um dos livros que mais tenho vontade de ler!

Pandora disse...

A proposito, a critica feita a maneira ocidental de fazer politica foi assim... Incrivel!!!

Allyne Araújo disse...

saber que o mundo nao muda é algo que nao impressiona tanto, pois enquanto uma parcela da população tenta mudar a outra apenas quer que tudo continue do mesmo modo, porque assim é melhor e porque da menos trabalho. é triste! e pena que real.. bjooo

Luna Sanchez disse...

O mundo, gira, roda mas se mantém no que tem de pior.

E não é pessimismo, é fato.

Um beijo, Ana.

Rebeca Postigo disse...

Os dias passam, mas as pessoas continuam semeando o que há de pior nelas!!!

Bjs

Tita disse...

Sempre fui muito envolvida em política, militante desde os 14 anos. Nunca me filiei pq sempre quis ter a liberdade para criticar e mudar de idéia. Trabalhei e convivi com políticos. Deixei de trabalhar quando não concordava mais.
De toda essa vivência posso dizer que realmente o poder pode corromper. Mas que ainda existem pessoas que continuam íntegras. E essas merecem realmente nossa admiração, pq é muito difícil vc não virar cão em meio aos cães. E mais complicado ainda pq a pessoa com boas intenções dificilmente consegue transformar isso em leis ou algo concreto em benefício da população. Pq, quando depende de votação, poucos enxergam além do próprio umbigo!

Christian V. Louis disse...

Infelizmente assim caminha a humanidade Ana. As pessoas falam muito que "antigamente", "na minha época" as coisas eram diferentes, mas não eram, não são e nunca serão.
Se está piorando, eu não saberei lhe responder, pois não vivi as outras gerações. Dizem que somos mais cômodos, acho que somos apenas o reflexo de um mundo que cansou de tentar mudar sem querer ser mudado.

Ricardo Miñana disse...

Buena reflexion en tu entrada,
un placer pasar por tu casa.
saludos.

Bill Falcão disse...

É por isso que é um clássico! Serve, pode ser lido, em qualquer época. Principalmente a nossa. Bjoo!!

Erica Ferro disse...

"...não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu que rastejassem na superfície da Terra..."

Diante disso, o que ainda tenho a dizer?
Nada.

Bela escolha, Seerig.

Trecho realmente fabuloso!

Leandro Cruz disse...

Otimo post, abraços!

inked-coffee.blogspot.