sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Talvez

Talvez nunca se descubra. Talvez não haja oportunidade. Talvez o gesto não se faça. E não havendo o gesto, não haverá tempo. Tempo que consome. Tempo que escorre. Tempo que desgasta. Talvez a rosa-dos-ventos não oriente. Talvez no oriente a estrela de Davi não mais brilhe. E se não brilhar como saber dos caminhos? E se não descobrirmos os caminhos como chegaremos ao fim? E se apenas houver o fim? E nenhuma palavra se fizer? E se a voz se extinguir? Como faremos? Seremos apenas? E o que dizer de todos os sonhos que um dia sonhamos? Guardá-los no mais escuro da memória? Como se fossem trapos rotos que a ninguém interessa? Talvez ninguém se interesse. Talvez não haja amanhãs. Talvez nenhuma manhã se acenda. Talvez o sol deixe de aquecer. E as trevas bordem os dias. E os dias se repitam na monotonia do nada. E o nada seja algo que não se termine. Ou que nos termine. Como saber? Como entender as razões que levam os homens a fugir? A fuga é solução? Que solução buscamos ao abrirmos a porta de nossa casa? Talvez o coração bata cheio de esperanças. Talvez não haja esperanças. Talvez o coração não bata. E o som que se ouça seja apenas o som do silêncio. Silêncio que aprisiona. Silêncio que entra pelos poros como se espinhos fossem. Que escorre pelos dedos. Que lateja. Que encobre a visão. Que não cala. Seja o que for, é. Mais do que possamos imaginar. Sonhar. Mais do que possamos admitir. Não adianta fingir. Trapacear. Enganar. A alma não se deixa. A alma não se acovarda. A alma é. Lugar aonde ninguém chega. Intransponível. Sitiado pela ilusão. De que as tradições permanecem. De que nossas bravuras permaneçam. Que não seja apenas hino, mas fé. Não sejam palavras que após o vigésimo dia se transformem em pó. Saudade. Desilusão. Inércia. Que tudo que cantamos nesta semana não seja desafinada melodia a perder-se pelos dias. Que os acampamentos interiores permaneçam, não símbolo do desejado, mas verdade transformadora. Talvez não se encontre esta verdade. Talvez ela esteja longe demais das capitais. Longe demais dos homens que teimam em propagandear a certeza. Talvez não haja certezas. Talvez não haja verdades. Só palavras. Só palavras. E mais palavras. Vãs. Vazias. Inertes. Sem força. Sem a determinação que forja. Que nutre. Que refaz. Talvez refazer seja uma palavra inexistente no dicionário destes homens. Transformar seja tão vago que a ninguém preocupe. Talvez seja o tempo do fogo. O tempo da solidão. O tempo da indiferença. E estejamos marcados. Para sofrer. Estejamos impedidos de cantar e dançar. Que a praça não seja nossa. Que por mais que se grite não haja quem acorde. Talvez nos reste sentar na pedra fria do desencanto. E aguardar a palavra que virá libertar. Que cortará as amarras. Que roerá as correntes. Que fará a luz brilhar com tanta força que acabe por cegar. Bendita cegueira que abrirá os ouvidos e soltará as vozes. Talvez nada disso se cumpra. Talvez nunca nos encontremos. Talvez a vida seja um estalar de dedos. Talvez a indiferença seja o abraço não dado. Talvez os braços não tenham mais força. Talvez a força se esgote antes que se faça. Talvez fazer seja uma palavra sem sentido.

Tudo isso só pra dizer: eu te amo.
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Esse post é uma surpresa até pra mim. Lembrei do Sérgio Napp (ou antes lembrei de um poema dele que conheci por forma de música e minha mãe me ajudou a lembrar do nome dele) e fui averiguar quais poesias dele eu conhecia na voz de Mario Barbará. Descobri o site dele e, consequentemente, que o cara é um gênio das palavras. Contos, minicontos, crônicas. Ele escreve tudo. Foi muito premiado e suas músicas já foram destaque na Califórnia da Canção Nativa (maior festival de música tradicionalista gaúcha) e em outros festivais. A minha ideia era colocar aqui um de seus poemas e sua versão musicada, mas não resisti a esse conto. Rio Grande do Sul é terra de Mario Quintana, do Erico e do Luís Fernando Veríssimo e, dentre outros mais, de Sérgio Napp. Recomendando uma visita ao site desse cara, termino o post com uma das mais belas canções gaúchas, "Desgarrados", de autoria de Napp e de Mario Barbará:

Desgarrados

Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas
Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas
E são pingentes das avenidas da capital

Eles se escondem pelos botecos, entre os cortiços
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias
E então são tragos, muitos estragos, por toda noite
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho

Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade
Viram copos, viram mundos
Mas o que foi, nunca mais será
Mas o que foi, nunca mais será

Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso
Viraram brasas, contando causos, polindo esporas
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos

Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno
O milho assado, a carne gorda, a cancha reta
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho

Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade
Viram copos, viram mundos
Mas o que foi, nunca mais será
Mas o que foi, nunca mais será

5 comentários:

Pandora disse...

Ainda estou sem palavras... Talvez eu as encontre outro dia, por hora estou embriada pela genialidade desse gaucho!!! Estou bebada de amor por ele!!!

Larissa V. disse...

Muito legal mesmo o texto, vou procurar mais coisas do Napp pra ler. É bom descobrir os talentos do Rio Grande!
:* Obrigada pelo comentário!

Luna Sanchez disse...

Ai, esse estilo de usar frases curtas, como quem dita o ritmo da respiração, me faz gamar, credo!

É muito amor no coração pelo Sérgio Napp, Ana!

=D

Beijo.

Tita disse...

Emocionante! A música já morava em minhas memórias. O texto eu não conhecia, adorei.

Carine Rodrigues disse...

Mas guria tu acredita que eu não sentia?? De uns tempos pra cá que deu saudade...... foi bom demais encontrar seu blog! bjss