segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Comédia simples

Por alguma razão, as pessoas evitam aquele banco. Preferem ficar de pé a sentar nele. Alguém pode dizer que dá enjôo, outro que é desconfortável; existem, afinal, mil razões pra não sentar naquele banco. Eu, de minha parte, até o acho bastante divertido. Acho uma graça sentar de costas pro motorista e ver os demais passageiros de frente, sem falar na diversão de ver tudo se afastar pela janela.
Naquele banco, tudo é visto ao contrário, já que a impressão é de que está se andando de marcha-ré. Muitas pessoas se incomodam com isso, creio, se incomodam em ver as coisas do avesso, ver de outro ponto de vista, sair do comum. Qualquer bobeirinha, como ver pela janela a pessoa que está na calçada se afastando e não se aproximando, é motivo para as pessoas se sentirem mal.
Eu me divirto bastante com isso, sem um pouco de controle, facilmente seria encontrada no banco que fica de costas pro motorista rindo como uma maluca. É tão engraçado olhar pro caminho que o ônibus deixa pra trás, quanto é engraçado lembrar das brincadeiras e tolices de infância. Comédia simples, risadas sinceras.
Mas as pessoas parecem se incomodar com as coisas deixadas pra trás. Não olham, não pensam e, alguns, preferem fingir que esqueceram e, a simples menção de algo passado, é razão de angústia. Besteira, na minha opinião. Rir de piadas e idiotices passadas é altamente divertido! Mas o maior desperdício mesmo, penso eu, é ignorar os erros e fracassos, tê-los como vergonha. Com um erro, aprende-se a ser um melhor profissional. Com um relacionamento ou uma amizade que falhou, aprende-se a conviver com as pessoas.
Sim, devo admitir que, em algum ponto, olhar pra trás nos deixa tontos. Mas isso é simples: somos feitos para olhar pra frente. O passado ensina e diverte, mas não podemos viver nele. Do mesmo modo, é bom não andar como um cavalo selado, que vê só o que está na frente. É bom e necessário saber de onde se veio e para onde se vai, mas quando se está sentado num banco qualquer, é tolice não olhar para os lados e descobrir a melhor maneira de aproveitar o momento.
Viver da melhor maneira é tirar o melhor proveito da vida; é olhar pra todos os lados; é passado, presente e futuro; é não se deixar parar por uma alegria, uma dor ou um amor, é buscar por mais. Viver é apenas isso: viver, e não se deixar parar por mais difícil que possa ser.



"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe."

(Oscar Wilde)



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No Gurias:

Sim, inegavelmente sou uma cópia dela. Mas só por fora. Cara de uma, focinho de outra, como dizem. O gênio é dele, certamente. Os gestos, são dele. Talvez por ter convivido mais diariamente com ele, ou talvez mesmo seja a genética.
Já me disseram que caminho como ela. Me disseram que tenho a voz dela. Mas outro dia me peguei assobiando pelo meio da rua. No outro, me vi ignorando quem falava com um livro de palavras cruzadas na mão. Assim como ele, peguei um livro e consegui encontrar todas as pessoas do meu dia a dia nele. (continua...)

7 comentários:

Pandora disse...

As vezes acho que as pessoas evitam "aquele banco" que é o do ônibus, mas também pode ser lido como o de uma posição perante a vida, porque a medida que vc ver todos, todos também te vêm e o olhar do outro, as vezes, é o Inferno! rsasrsrs...

Me identifiquei com esse passageiro que prefere o assento ao contrario, que ver o trageto que foi feito.... que encara o passado e é pelo passado encarado... tudo haver com meu oficio, tudo haver com ser Historiador!!!!

Se historiador é sentar "naquele banco" ficar de costar para o que dirige e observar o caminho, os caminhantes e buscar aprender com essa esperiencia! Ver a comédia simples da vida!!!

Táh, vendo porque eu gosto de ler seu blog de madrugada, me inspira no meu oficio de pensar o passado com o corpo no presente!

Divaguei demais no coments... mas é foi preciso!

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Ana, Gostei desse olhar enviesado, invertido (sua analogia é muito rica). Gostei muito também do blog e agradeço-lhe a gentil visita ao meu texto lá no Emquantos). Abraços. Paz e bem.

Dama de Cinzas disse...

A proposta do texto é bem interessante, a visão de um outro lado da questão. Olhar o mundo sob outro prisma. Mas o banco em si acho bem chato... rs. Se puder eu evito... rs.

Beijocas

Luna Sanchez disse...

Sou do time dos que evitam esse banco, Ana, porque não gosto de ficar de frente para as pessoas.

Sim, sou louca e chata.

:p

Um beijo grande.

Gabriele Rohde disse...

Eu nunca havia pensado naquele simples banco com estes olhos, mas admito que faço parte da população que se sente mal em encarar o ônibus inteiro de frente, vendo as pessoas na rua se afastarem. Me causa mal estar e as vezes até me intristece, mas digamos que era algo subliminar, só fui notar mesmo agora que li seu texto, lindo por sinal :)

VaneZa disse...

Em se tratando do banco literal eu o evito pq se não eu sujo todas as pessoas com vômito. rs

Em se tratando do banco simbólico... ah! Esse... dificilmente eu o abandono... por conta da memória fantásctica eu sempre fico muito presa ao passado... algumas mágoas me acompanham até hoje. Mas ultimamente estou reavaliando um série de coisas na minha vida... e essa é uma delas. Eu não queria esquecer as coisas... eu queria apenas não sofrer mais por elas.

BeijoZzz

Cinderela Descaída disse...

Olho para trás mais do que gostaria. Caio fácil na nostalgia e no ficar pensando: "E se?"
Tenho que aprender a aproveitar o presente. Presto pouca atenção ao que acontece - quando está acontecendo.
E tenho de aprender a não temer o futuro porque, inevitavelmente, ele chegará!
Beijo,