sábado, 30 de abril de 2011

Floriano,

É óbvio que sei que teu nome não é este, mas sim essa carta é pra ti. Volta e meia acabo por retomar meu enanto pel'O Tempo e o Vento e, quando vejo, ali estou a concluir que, mesmo com o adorado e indescritível Capitão Rodrigo Cambará, não consigo negar que meu favorito é Floriano Terra Cambará. Não posso explicar ao certo, mas a verdade é que por vezes sinto vontade de reler toda a trilogia, apenas para me perder nos pensamentos e teorias do Floriano. Provavelmente por concordar com ele em alguns pontos, senão vários.
Mas fujo da explicação de te chamar assim. A verdade é que não há uma exata, creio que todos somos um pouco de Floriano, mas na última vez que me encontrei retomando partes do final da trilogia sobre os Terra-Cambará, só pude lembrar de ti. Talvez seja por perceber que tu, como ele, percebe tão bem os outros, ao mesmo tempo em que defende suas ideias e esconde e nega certos pontos em ti. Me refiro aqui à Sílvia. Não que eu simpatizasse com ela, mas a verdade é que dificilmente simpatizo com as mocinhas, elas sempre me parecem tão desmerecedoras dos adoráveis mocinhos. Quer dizer, com caras tão legais, que ao que parece só existem na ficção, como é possível que elas tenham atitudes tão toscas em relação a eles?
Opa, me perdi de novo. A Sílvia não era tão tosca assim, eu sei e não posso não admitir, mas ainda acho o Floriano querido demais pra ela, se bem que ele ainda foi o mais tosco na relação toda. Estou aqui falando e falando, e não posso ter certeza de estar sendo compreendida. Se não leu o livro, é impossível que me entendas; mas creio que leu, ainda assim é possível que não tenha visto onde quero chegar. Floriano e Sílvia tinham tudo pra dar certo, eles sabiam que daria certo, mas ele achou mais fácil não arriscar, podia ser ilusão, podia tudo dar errado, ela merecia coisa melhor, melhor deixá-la ir.
Ah, toda vez que eu lia uma frase em que Floriano se desmerecia, eu tinha vontade de bater e gritar na tentativa de fazê-lo perceber que na verdade ele era o completo oposto do que achava ser. Mas era uma personagem em um livro, como faria isso? E cá estou eu agora te usando como Floriano Cambará, dizendo o que eu queria ter dito a alguém que não existe. Diabos, será que eu enlouqueci? Será que Floriano virou uma paranóia na minha cabeça em vez de um personagem que admiro? Acho mesmo que o estou apenas usando como desculpa para dizer o que quero te dizer.
Somos todos covardes sentimentais, o que varia é apenas o grau. A maior parte das pessoas tenta camuflar tal covardia mostrando serem profundos sentimentos que simplesmente não existem. As pessoas adoram meter-se em relacionamentos achando que o fato de poder dizer que tem um os salva da covardia de admitir que não existe sentimento, medo de ficarem sozinhas por não buscarem sentir. Mas fazemos parte do grupo contrário. Digo fazemos, porque como já disse, boa parte do meu encanto por Floriano Terra Cambará se deve às ideias dele. Bem, se eu, de certa forma me identificava com ele, não posso negar que minha covardia sentimental é da mesma espécie da de vocês.
Mas não falemos de mim, mais fácil é continuar usando Floriano como exemplo e tu como ponto de análise. Ele covardemente ignorou Sílvia quando ela lhe deixou claro que ela só poderia ser feliz com ele admitindo como certas conclusões sobre si próprio, as tais que me deixavam com vontade de gritar. Não lembro ao certo se ele usava a diferença de idade entre os dois como desculpa, pode ser, afinal ela existia; mas tenho por certo, e essa é uma das coisas que mais lembro dele, que ele via-se como um cafajeste, o qual, sem dúvida, não a merecia. Como um cara tão querido podia ser cafajeste? É isso que eu te digo. Sílvia sabia que ele não era, mesmo que ele a tentasse convencer disso. Mas era mais fácil pra ele dizer "Eu não presto, tu mereces coisa melhor".
Além de ser um egocentrismo tremendo o dele achar que pode saber o que é ou não melhor pra ela, isso foi fruto de uma paranóia danada. Sim, Floriano tinha seus motivos. Tu deve ter os teus para agir como age. Eu tenho os meus. Cada um tem os seus. Mas ainda assim é uma covardia horrenda. Mas é difícil admitir que se pode ser feliz com alguém quando se quer insistir na ideia de autosuficiência. E é tão fácil concluir tudo isso, mas tão difícil colocar em prática. Eu queria gritar "Vai dar certo", mas seria tão ignorada como eu mesma tento ignorar.
Sílvia, como disse, não era de todo tola. Aliás, até a admiro. Ela chegou em certo ponto e disse "E então?", todo aquele fingimento de falta de compreensão do que era claramente compreensível precisava parar. Floriano preferiu continuar a fingir. Sílvia não correu atrás, eis no que admiro, em vez disso tentou ir em frente e aí chega-se ao ponto em que eu a critico. Seguir em frente não tinha um único caminho, aquele que a levava ao altar com Jango. Entendo toda a situação, mas tal atitude foi covarde. De qualquer forma, ela tentou. Não deu certo, ninguém seria o Floriano. Floriano percebeu o quão tosco foi, mas era tarde.
E cá estou, talvez por encanto a ele, enxergando a ficção na vida real. Mas ainda há uma chance de não ser total imaginação. Não, não sou nenhuma Sílvia. Não vou repetir um último pedido, assim como ela fez; mas não vou tentar solucionar o problema correndo pelo primeiro caminho que surgir. Aliás, se eu fosse me identificar com uma personagem, fugiria das histórias narradas por Erico Veríssimo e me encontraria nas palavras de Jane Austen: Jane Bennet. Engraçado, sempre achei o seu maior problema incabível, mas agora me parece ser tão real: achar-se óbvia e permanecer incerta na interpretação dos outros. Mas essa é uma análise pra outra carta, que será escrita quando eu deixar de ignorar os gritos que dirijo a mim mesma...
Não podendo assinar de outra forma,
Jane.

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Cartas fictícias e/ou jamais endereçadas: eis meu novo hobby.

3 comentários:

GrazieWecker disse...

embora não tenha entendido a parte real do post (nem vem com essa de fictícia...), achei bem bonito o texto.

me motivou a continuar lendo O Tempo e o Vento! comecei a ler O Continente vol. 2 recentemente, e embora esteja gostando muito, parece que nada nem ninguém vai conseguir ser melhor que Pedro Missioneiro e o capitão Rodrigo Cambará. mas tu dizendo que gosta mais do Floriano, talvez todos os Cambarás tenham feitiço...

Dayane Pereira disse...

Eu ja escrevi cartas não enviadas, ou o que quer que seja no meu blog.. Gosto disso!
E sei que sempre há um pouco de nós mesmas nelas.
Não conheço esses personagens, mas já me vi diversas vezes no lugar de personagens de livro, ou tentando analisa-los, ou tentando com a força do pensamento fazer com que eles mudassem de atitude, como se pudessemos assim mudar o final do livro.
Estranho, difícil eu simpatizar com as mocinhas também.. São sempre tão.. tão.. mocinhas.. ha!

Tiêgo R. Alencar disse...

Pode ter certeza que escrever cartas para "ninguém" é uma das melhores terapias que existem. É escrever aquilo que a gente tá sentindo pra "alguém" que a gente tem certeza que não vai contar pra ninguém, ou quase isso. hahaaha

Beijo :*