domingo, 1 de novembro de 2009

Venderam a casa da esquina

Venderam a casa da esquina.
Foi o que me disseram. A casa da esquina que tinha sua cerca de ferro coberta por plantas. Olhava-se para a esquina e via-se apenas plantas e, dependendo do ponto de observação, uma ponta do telhado. Apesar de conhecer quem morava ali, nunca os via. Não os via entrar e nem sair. Não os via aparando as plantas da cerca e, muito menos, via-os através das frestas entre as plantas.
Venderam a casa da esquina.
Não, não os conhecia direito, apenas de vista, mas essa era uma notícia importante. O que fariam com a casa? Por que a venderam? Quem comprou a casa da esquina? Não descobri nada disso até agora. Os vizinhos mudaram-se. E a casa? No domingo seguinte ela começou a mudar.
Venderam a casa da esquina.
Percebi o que fizeram quando olhei para o canto da rua e estranhei: estava faltando algo. Ou melhor, estava tudo limpo demais, claro de mais. A cerca, antes coberta de plantas, estava agora vazia, despida. A cerca de ferro agora revelava uma casa vermelha, talvez bordô. Parecia ter sido pintada recentemente, ou talvez fosse só impressão. As plantas que durante anos cresceram e se enroscaram na cerca agora estavam no chão, cortadas, despedaçadas, criando um tapete verde na calçada.
Venderam a casa da esquina.
Era difícil acreditar. Não havia mais plantas e, como se do nada, surgira uma casa bordô na esquina. A esquina parecia vazia, abandonada, solitária, mesmo estando em uma avenida. Afinal, venderam a casa da esquina e todos pareciam lamentar por isso. Tudo parecia vazio.
Venderam a casa da esquina.
No domingo seguinte, quem morava ao redor da casa da esquina acordou ao som de martelos em madeiras. Olhei pela janela. Estavam desmontando-a, despedaçando-a, destruindo-a. Ao fim do dia, a esquina onde antes havia um cerca de ferro dominada por plantas e, depois, uma casa bordô, estava agora cheia de tábuas de madeira. A única prova de que houvera uma casa ali eram algumas paredes de tijolos, ainda pintadas de bordô.
Venderam a casa da esquina.
Não havia mais plantas. Não havia mais casa. Restava apenas a cerca de ferro. A mesma cerca que antes era coberta por plantas. A mesma cerca que antes envolvia uma casa. A cerca que agora protegia apenas algumas tábuas e telhas. Era tudo o que restava da casa da esquina.
Venderam a casa da esquina.
Caminhões vieram nos dias seguintes pegar os restos da casa que antes existia na esquina. As paredes de tijolos logo foram destruidas também. Não restava nada mais que a cerca. Agora era apenas a esquina, sem casa e sem plantas. Tudo estava vazio. A avenida parecia vazia. A cerca parecia estar separando um imenso deserto de uma grande e movimentada cidade.
Venderam a casa da esquina.
A casa foi destruída. Só restou a esquina.

2 comentários:

Erica Ferro disse...

Muito bom, Ana!

Adorei.

Quem sabe se um dia constroem uma nova casa na esquina, tão linda quanto a outra que havia?

Beijo.

Natália disse...

Muito bom mesmo teu texto, adorei!!!
Grande espírito imaginário!
Beijos ;*