quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Anos verdes - Fernando Sabino*

Nadou bastante, bastante. Ele mesmo não sabia por que escolhera a lagoa. Pois se nadava tão bem! Mas o meio pelo qual o conseguiria era o de menos: o que desejava era morrer.
Só pensava no que diriam quando dessem pela sua falta.
- Onde ele andará? Já é hora de estar em casa. Maria, procure-o por tudo quanto é lugar.
E a Maria, cheia de cuidados, sairia a procurá-lo. Com certeza iria à casa do Maneco.
- Maneco, você viu o Joãozinho? A mãe dele mandou ver se ele está aqui. Tem um tempão que sumiu e a gente não sabe onde é que ele foi. Dona Augusta fica aflita que só vendo. Deixa o patrão chegar da rua, e então é que o negócio vai pegar fogo, quando souber que o Joãozinho ainda não voltou.
Mas o Maneco não saberia. Nem o Maneco, nem o Duda, nem o Pintado. Ninguém da turma do bairro saberia dizer onde é que ele andava aquela noite.
- É, bem que ele tinha combinado jogar birosca comigo. Papou minha bolinha de gude pintadinha e a esfera do carro do papai. Agora de noite que eu ia ganhar dele... Prometeu vir e nem apareceu. Isso é sujeira. Medroso. Com minhas bolas é que ele não fica.
Imaginava só a raiva do Duda, esperando-o na birosca para o jogo que tinham combinado. Sorriu. O Duda iria ficar apavorado quando soubesse que ele tinha morrido. Que combinara jogar com ele na noite de sua morte. Nossa Senhora, que importante sua morte ia ser!
O diabo é que a água estava fria, muito fria mesmo. Aquilo não dava certo não. Então para morrer afogado era só cair na lagoa e nadar até não poder mais? Isso ia custar muito. Agüentava fazer tal coisa um tempão sem cansar! Era o que nadava melhor de todos. Quem sabe se não era preciso amarrar uma pedra no pé? Tinha lido em muito livro de pirada um negócio assim.
Qual, besteira de livro. Não vira claramente na última fita do Fredric March que ele, para morrer, ia entrando assim pelo mar adentro, sem pedra e sem nada? E ainda por cima de chinelos e pijama. Uai, mas talvez fosse porque o Fredric March não soubesse nadar, ou pelo menos não tão bem quanto ele. Aí é que estava a história. Se o sujeito soubesse nadar, levaria a pedra. Se não soubesse, iria para o fundo, com o peso ou sem ele. Estava explicado.
Essa extravagância viria, entretanto, trazer para ele muita complicação. Começa que não tinha jeito de sair da praia carregando uma pedra de baixo do braço ou amarrada no pé. Necessitaria de um barco, seria uma confusão terrível.
Sabia lá, de um modo ou de outro, havia de morrer aquela noite. O caso é que a lagoa estava horrivelmente fria. Os dedos da mão estavam duros, já, apesar das braçadas que ia dando.
Engraçado: pensando em tanta coisa, até esquecera porquê, na verdade, queria morrer. Com é que a gente pensa quando está nadando! Mais ainda do que quando não está fazendo nada. Talvez fosse porque a gente acaba nadando sem sentir. Fazendo os movimentos todos, as braçadas, a respiração, a batida de pé, sem nem pensar que está dentro d’água. A razão era muito forte, ela não a esqueceria assim, assim. Lembrava-se bem. Parecia que via ainda sua mãe contando dinheiro, com a testa enrugada de preocupação porque as contas não estavam dando certo.
Mas, o que ele tinha com isso? Procurara-a contente para lhe mostrar um desenho que fizera. Pulara ao seu pescoço a gritar:
- Olhe, mamãe, olhe, eu que fiz. Sozinho. Esse desenho fui eu que fiz, mamãe!
Entretanto, o que aconteceu à segunda tentativa de carinho é que lhe doera profundamente. Não fora só porque ela lhe repelira o beijo. O pior fora o desenho. Por causa dele, sim, por causa dele ali estava, agora, nadando na lagoa.
Era até uma caricatura copiada de uma revista e que ia falar ter sido feita por ele. Dona Augusta pegara no desenho que lhe pusera no colo e, sem nem ao menos olhá-lo, rasgara-o, atirando-o pela janela:
- Que menino cacete! Tome modos! Por que não some de uma vez?
Por que não some de uma vez? Por que não some de uma vez? Fora isso. Até o desenho rasgado deixaria passar, se ela não houvesse dito isso. Sairia chorando, como fez, e em breve estaria tudo esquecido. Sim, em breve tudo acabaria. Porque sabia que sua mãe era assim. Muito boazinha. Cheia de carinhos. Gostando muito de seus beijos e de tudo mais que ele fazia. Mas quando tinha aquelas rugas na testa...
Fora por ter falado com irritação. Por que não some de uma vez? E sumiria mesmo. De uma vez. Para sempre. Quase agradecia a Dona Augusta ter arrematado o incidente com uma frase amarga.
A princípio pensara só em fugir de casa. Isto é, a princípio mesmo não pensara em coisa nenhuma. Saíra chorando e se escondera no fundo do quintal, para que pudesse soluçar à vontade, sem pôr em jogo a virilidade de seus 12 anos incompletos. Quando o pai chegasse da rua, ela havia de ver. Falaria uma porção de coisas dela. O papai haveria de lhe dar razão.
Qual, sabia que o pai ainda custava muito a chegar e que até lá a dor já havia passado, como acontecera tantas vezes. Não, não queria que ela passasse. Não queria esquecer o incidente. Que fazer para que a prevenção contra sua mãe se mantivesse ainda mais algumas horas?
Lembrara-se vagamente do Duda esperando-o para o jogo de gude. Não podia continuar soluçando assim. Se aparecesse com cara de choro para o pessoal, seria uma encarnação fortíssima. Era melhor fugir. Sumir de todo mundo. Sair por aí afora, ele não sabia bem para onde. Sumir de uma vez. Por que não some de uma vez?
No entanto, sabia por experiência própria que o arrependimento o traria logo de volta à casa, para os braços da mãezinha querida. Naquele momento ela não era querida, mas – algo lhe segredava – em breve seria. Então pensara em morrer. E como se houvesse alguma relação entre a idéia de morte e a lagoa, para esta voltou a mente e os passos.
E ali se achava. Nadando, nadando. Já com os dedos da mão durinhos de frio. Os do pé também já estavam duros. Quase no meio da lagoa, e nada da morte vir. Que faria? Parou para descansar. Arfava um pouco. Um pouquinho só. Estava acostumado.
Olhou para a praia, distante. Viu só uma série de pontinhos brilhantes que refletiam n’água, a luz dos lampiões e janelas das casas. Numa das janelas com certeza se debruçava a mãe, com os olhos cheios de lágrimas, esperando em vão a sua volta. Mas ela talvez ignorasse que ele nunca mais voltaria. Nunca mais. Podia ficar esperando a noite toda, a seguinte, muitas e muitas noites. E ele tinha certeza que ela ficaria. Sentiu pena da mãezinha nessa espera ansiosa. Precisava morrer depressa, antes que sentisse vontade de voltar para ela.
Experimentou dar um mergulho. O máximo que já descera não chegava nem a cinco metros. Sabia que a lagoa ali era bem funda. Uns dez metros. Dez? Uns vinte, trinta, talvez até cinqüenta. Desta vez iria até lá embaixo. Bem no fundo, para que não tivesse fôlego para voltar à tona.
Sabia que não agüentaria a pressão. Pressão? Como seria mesmo essa história? Tentou sorrir, mas dessa vez não conseguiu. Parecia que o frio da noite lhe endurecera a boca.
Mergulhou. Aspirou profundamente e foi descendo, em pé. Abriu os olhos. Nunca julgara que a lagoa, lá dentro, durante o dia de um verde tão bonito, fosse tão feia à noite. Preta, preta feito breu. Continuava descendo, ainda soltando ar, que já escasseava. Só ouvia as borbulhas que fazia irem subindo, blu-blu-blu-blu. E seus ouvidos começavam a doer. Devia ser a pressão.
Quantos metros tinha descido? Uns cinco. Nem isso. E o ar já acabar inteiramente. Sentia vontade de respirar. Aquele silêncio pesado e profundo, aquele negrume todo em volta dele eram impressionantes. Já não se agüentava. Sentia necessidade de ar. Muito ar. Seu peito parecia estar rebentando. Estava sendo comprimido de todos os lados. Queria respirar, RESPIRAR!
Não suportou mais. Deu uma braçada forte para cima. Outra, outra. Os ouvidos doíam-lhe muito. Seu peito se esmagava. Precisava cerrar os lábios fortemente para que não aspirasse água.
Uf! Eis que alcança a superfície. Um sorvo de ar, ar puro e frio. Mais outro. Não havia nada como o ar. Estava ofegante. Respirava apressado, como se aquilo fosse privilégio de poucos instantes.
Aos poucos foi voltando à calma. O ouvido doía ainda. Mas a vontade de respirar havia passado. Puxa! Como era difícil! Exigia uma força de vontade de todo tamanho. Nunca pensara nisso. O pior não era morrer, era esperar pela morte. Ela custava muito!
E morrer por quê? Ah, porque sua mãe rasgara o desenho. Isto é, não por isso, mas porque o mandara sumir, e sumiria, acabou-se. Mas será que desejava mesmo que ele sumisse?
Pensando bem, ela falara porque estava nervosa, preocupada. Porque as contas não estavam dando certo. Só por isso. Não que ela quisesse que ele fosse embora de verdade. Desde o princípio sabia disso. Então, para que desejava morrer? Para a turma comentar. Todo mundo a procurá-lo. Coitadinho do Joãozinho, tão moço. Ele era tão inteligente, e morrer assim.
E o pior é que seu pé direito já estava inteiramente duro e insensível. Era melhor morrer de uma vez, ou voltar para casa. Voltar para casa? E os pitos que iria levar? – Nadando de noite, não é? Pega aí uma pneumonia só para nos dar amolação. – Seu pai era até capaz de lhe dar uma surra. Não, era melhor morrer. Tentaria outra vez, e desta não voltaria à tona de forma alguma.
Foi quando ouviu um marulhar assim a alguns metros dele. Que seria? Uma ondinha. Soprava um vento frio. Não, talvez fosse um peixe. Eles diziam que ali havia piranha.
Ora, vira que fora uma onda à toa!
É, mas se fosse mesmo uma piranha?
Então sentiu medo. Um medo forte, irresistível. Olhou para o céu todo estrelado. Nem uma nuvem. Como é que cabia tanta estrela no céu? Voltou-se para a terra. Que terra, dali só via luzinhas, assim mesmo piscando como se fossem sumir. Estava longe, muito longe mesmo. A vastidão do eu e das águas assustou-o. Era melhor voltar. Deixar para morrer outro dia. Sim, talvez voltar fosse mesmo o melhor. Sua mãe esperando-o, na janela da casa, olhos vermelhos de tanto chorar. Enfim, ela não falara por mal. Estava preocupada, contando dinheiro. O desenho não importava. Tão malfeito e, afinal, nem fora ele realmente quem tinha desenhado. Copiara-o. Castigo por querer enganar a mãezinha.
O medo aumentou mais ainda. Sentiu uma angústia, uma falta de ar, apesar de estar bem na tona. Era melhor voltar. Seu corpo todo já endurecia de frio. A água estava gelada.
Deu umas braçadas para o lado da terra. Batia perna com dificuldade. Não julgou que ela fosse endurecer tão depressa. E agora, parecia que mil agulhinhas lhe fincavam o pé, a perna, os braços. Que sensação mais esquisita. O braço estava rijo que nem pau. E doía muito. Era a câimbra. Bem diziam que ela dava quando o membro ficava muito tempo na água fria. Paralisação do sangue. Isso mesmo, paralisação do sangue.
Precisava se esforçar muito para se locomover dentro d’água. Mal conseguia manter-se na superfície. A dor nas pernas era pungente. Lágrimas saltavam de seus olhos se confundindo com a água da lagoa. Não, ele não queria morrer. Queria voltar para casa. Lançar-se como doido aos braços da mãe. Ela não tinha culpa, estava preocupada. As contas não estavam dando certo. E, desesperado, olhou ainda uma vez ainda para as luzinhas da praia tão distante.

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*Primeiro conto do livro 'Os grilos não cantam mais', de Fernando Sabino, que foi publicado quando ele tinha 18 anos. Li nesses últimos dias o livro, realmente bom de ler. Todos os contos são legais, alguns mais cômicos, outros mais trágicos, mas gostei especialmente desse. Logo após o lançamento do livro, Mario de Andrade mandou uma carta a Sabino, elogiando-o pela bela estréia literária. A partir de então, iniciou-se entre os dois uma correspondência ativa, que mais tarde veio a ser publicada com o título 'Cartas a um jovem escritor e suas respostas'.

2 comentários:

Erica Ferro disse...

Ai! Sabino é deeemais. Adoro-o!
Adorei esse conto.
Bem emocionante, fiquei agoniada pra saber se ele ia morrer, se ia se arrepender, enfim... MUITO BOM!
Quero ler esse livro. ;)

Beijo.

Natália disse...

Muito bom o conto!
Acho que todos ficam aflitos junto com o personagem. Somente à espera do final, que, ao meu ver, foi extremamente trágico, com ele se arrependendo sem ter escapatória. Mas né, vai do ponto de vista.
Beeijos