quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Uma boa teoria

"Venho manifestando já por vezes a minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas 'responsabilidades' políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra. E, por isso, não me perdoam, pois se julgam todos, sem dúvida, inocentes: o Kaiser, os generais, os grandes industriais, os políticos, os jornalistas - nenhum deles tem absolutamente nada de que recriminar-se, ninguém tem culpa alguma! Poder-se-ia até pensar que tudo foi melhor assim para o mundo, embora alguns milhões de mortos estejam embaixo da terra. E saiba, Hermínia, que embora esses artigos ignominiosos não me possam atingir, às vezes me entristecem. Dois terços da gente do meu país leem esta espécie de jornal; leem de manha e à noite coisas escritas nesse tom, são trabalhados permanentemente, incitados, açulados; semeia-se neles o descontentamento e a maldade, e a meta final de tudo isto é outra vez a guerra, a próxima guerra, que já está chegando e que, sem dúvida alguma, será muito mais horrenda do que a última. Tudo isto é claro e simples, qualquer pessoa pode compreendê-lo; com uma hora de meditação todos poderiam chegar ao mesmo resultado. Mas ninguém quer agir assim, ninguém quer evitar a próxima guerra, quer livrar-se nem livrar a seus filhos da morte aos milhares, nem quer parar um instante e pensar voluntariamente. Uma hora de reflexão, um momento de entrar em si mesmo e perguntar a parte de culpa que lhe cabe nesta desordem e na maldade que impera no mundo - mas ninguém quer fazê-lo! E assim tudo continua como estava e a próxima guerra vai se preparando a cada dia que passa, com o auxilio de milhares e milhares de pessoas diligentes. Estas coisas sempre me desesperaram: para mim não existe 'pátria', não existe 'ideal' algum. Tudo isso não passam de frases inculcadas por aqueles que preparam a próxima carnificina. Não tem sentido pensar ou escrever algo que seja humano, de nada vale ter boas ideias na mente - são duas ou três pessoas que agem assim; em compensação, há milhares de jornais, de revistas, de conferências, reuniões públicas ou secretas que, dia após dia, insistem no contrário e acabarão por alcançá-lo."

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Essa teoria, com a qual, por sinal, eu concordo, foi exposta pelo escritor alemão Hermann Hesse, na voz do personagem Harry Haller, no livro 'O Lobo da Estepe', de 1927. Ou seja, Hesse escreveu tais palavras 9 anos depois do fim da 1ª Guerra Mundial e 12 anos antes da 2ª Guerra Mundial.

Não tenho muito a acrescentar a essa teoria, concordo plenamente com ela. A única coisa que tenho a sugerir é apenas uma hora de meditação para pensar no assunto.
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Mais sobre o livro aqui.

2 comentários:

Erica Ferro disse...

A parte que me cabe...

Pensarei no assunto.

Pandora disse...

Eu não sei qual tipo de livro você imagina que seja o meu tipo de livro dona Ana, mas eu concordo com cada palavra dita por Harry Haller. Ele está muito certo e Hesse tinha uma visão em perspectiva muito boa para a época na qual ele estava... Hoje eu não sou muito fã do tipo de literatura que foi parida entre 1990 e 1950 porque li muitos livros dessa época entre meus 15 e 18 anos, meio que fiquei saturada, mas textos reflexivos, questionadores e pouco didáticos sempre foram os meus tipos de texto.